quinta-feira, 29 de setembro de 2011

De frente para o sol - Irving D. Yalom

No embalo da postagem anterior, quero recomendar o livro que acabei de ler, e que claramente inspirou-me a pensar mais a fundo e a escrever sobre a questão da morte: "De frente para o sol" de Irving D. Yalom, o mesmo autor dos livros "Quando Nietzsche chorou", "A cura de Schopenhauer" e "Mentiras no Divã".

O autor, agora com 78 anos, conta sobre sua experiência clínica com pacientes que, de alguma forma, experenciaram a morte (seja através da iminência da sua própria morte, seja pela perda de pessoas significativas, seja pelo profundo temor que sentiam pela mesma). Além disso, ele imprime uma visão bastante pessoal sua sobre esse tema, e fala sobre o que aprendeu a respeito com seus mestres. A escolha deste assunto, a esta altura da vida de Yalom, certamente também não foi ocasional.

É uma leitura bastante introspectiva, interessante, que faz pensar. Diferente de outros títulos do autor, é mais denso, não sei se pela forma como foi escrito, se pelo assunto em si, ou pelas duas coisas.



quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A morte como parte da vida

Você certamente já ouviu a seguinte frase: "Para tudo nessa vida há uma solução, menos para a morte". Ela é muito verdadeira, pois a única certeza que temos, desde o momento que nascemos, é que iremos morrer (mais uma que você deve conhecer...). Frases prontas a parte, esse é realmente um assunto que, em geral, angustia, e muito, as pessoas. Tanto que, muitas vezes, evitam falar sobre isso.

Pode parecer unânime, mas cada pessoa tem uma forma muito particular de ver a morte, e assim é também com os medos e angústias com relação a ela. Existem pessoas que sofrem ao pensar que não vão mais existir, que as coisas continuaram acontecendo sem ela, que ela não saberá como as pessoas amadas estão, onde chegaram, e até mesmo de que, em poucas gerações, serão completamente esquecidas.

É claro que essa concepção sobre a morte também é muito influenciada pelas crenças religiosas que a pessoa possua, se para ela há uma continuidade, e como isso se dá, ou se tudo acaba quando morre, etc. A verdade é que, mesmo com relação a isso, o que está em jogo é a fé, porque certeza mesmo de como é, ninguém tem. É algo sobre a qual, definitivamente, não há qualquer controle.

E já que não se sabe como a experiência da morte é, realmente, e nem há controle sobre ela, em nenhum aspecto, é interessante pensarmos na influência que esse fato tem nas nossas vidas, aqui e agora.

Existem muitas pessoas que, como receio dessa sensação de desaparecer, ser esquecido, pensam (consciente ou inconscientemente) em formas de se perpetuar, de se fazer lembrado. Assim é quando se tem um filho, ou quando se faz uma grande obra que fica para a posteridade. Penso que a frase "Elvis não morreu", por exemplo, é muito verdadeira, independente se ele tenha mesmo morrido ou não. A questão é que as pessoas sempre lembrarão dele quando ouvirem suas músicas, seu nome nunca será esquecido. Isso é não morrer.

Outra questão importante com relação a isso é a qualidade da vida que temos. O grande medo, muitas vezes, pode nem ser com relação ao que vai acontecer, mas o que deixou de acontecer. Sabe aquele pensamento que muitas vezes temos de que "um dia ainda vou fazer isso, vou a tal lugar"? É o medo de que esse dia nunca chegue.

E não é só a nossa morte que nos aterroriza. Aliás, muitas pessoas temem muito mais a morte de pessoas queridas, do que a própria. Mas, de qualquer forma, mais uma vez pensando na nossa incapacidade de controlar isso, é possível pensar em que isso influencia na nossa vida. As experiências com morte de pessoas próximas e queridas podem ser devastadoras, mas também engrandecedoras, por fazer a pessoa que teve essa importante e dolorosa perda ter que, necessariamente, se ver diante da sua própria finitude, da sua própria vulnerabilidade. E mais importante, da vida que está levando.

Enfim, esse é um assunto que muitas vezes as pessoas evitam. Mas não deveriam, visto que nós, seres humanos, estabelecemos sempre nossos parâmetros a partir dos opostos. Só sabemos o que é a alegria, e o quanto ela é maravilhosa, porque já sentimos tristeza um dia. Assim é também com relação a morte.... e a vida.

O importante é fazer com que essa seja uma vida que vale a pena ser vivida. Sobre isso temos controle.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Mercado de trabalho: quando e quanto levar em conta

A escolha da carreira é, muito provavelmente, a primeira grande escolha feita por todos nós. Até a idade em que isso ocorre, normalmente por volta dos 17 ou 18 anos, tudo o que fizemos foi escolhido ou direcionado por alguém, na maioria das vezes pelos pais.

Mas aí chega a hora de prestar o vestibular e não há ninguém que possa decidir o que fazer por você. E a dúvida é: "o que levar em consideração para fazer essa escolha?"

Estive lendo uma reportagem da Revista Veja, que fala das 20 carreiras que estão em alta (edição de 22 de junho de 2011). São carreiras que possuem grande empregabilidade e remuneração alta. Além disso, a reportagem mostra casos de pessoas que deram uma guinada em suas carreiras, fizeram cursos, especializações e até novas faculdades, e agora estão atuando nessas áreas promissoras. Todos muito felizes e contentes com o trabalho e a remuneração.

Essas são informações importantes, que devem ser levadas em conta por alguém que está escolhendo que caminho profissional seguir?

A resposta é sim. No entanto, a questão é o momento em que esse tipo de informação realmente ajuda na escolha. A chance de uma pessoa que esteja com muitas dúvidas sobre que caminho seguir simplesmente aderir a esse tipo de informação e escolher pela maior chance de arrumar emprego e ganhar bem é grande. Mas não podemos esquecer que nós vivemos em um mundo globalizado, sujeito a mudanças todo o tempo. Será que essas carreiras terão esse mesmo sucesso daqui 4 ou 5 anos, tempo que se leva para terminar um curso universitário?

Por isso, levar em consideração apenas as variáveis externas, ou seja, as oportunidades que existem no mercado, para escolher uma profissão é um grande risco. Antes disso, é preciso fazer as seguintes perguntas: "Do que eu gosto? O que é importante para mim em uma carreira? Onde eu pretendo chegar? Qual é o meu projeto profisisonal?". Olhar para dentro primeiro, conhecer-se, saber o que quer, para depois verificar lá fora quais são as oportunidades existentes para trilhar o meu caminho.

Dessa forma, as chances de sucesso são muito maiores, seja qual for a conjuntura econômica daqui a 4 ou 5 anos. Em qualquer carreira que se escolha, é preciso esforço, dedicação de energia e tempo. Passamos mais tempo no trabalho do que em casa, com nossa família. Por isso é fundamental fazer algo de que se gosta, com que se sente bem. Se a escolha for feita apenas pelas chances de sucesso da carreira, e isso não se concretizar, as chances de fracasso e frustração são enormes.

Por isso, é preciso ter cuidado com essas informações a respeito das oportunidades do mercado de trabalho. Elas podem tornar-se grandes aliadas, se ocuparem o lugar certo na sua decisão.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Adolescência ou Aborrecência?

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a adolescência vai dos 10 aos 19 anos de idade. É o período de desenvolvimento compreendido entre a infância e a fase adulta, e uma importante etapa de transição, onde ocorrem inúmeras mudanças, tanto em termos biológicos, quanto psicológicos e sociais. A OMS considera apenas os fatores biológicos para determinar as idades de início e fim da adolescência. No entanto, como todos os três fatores têm igual importância para esse fenômeno, a determinação dessas idades é muito mais complexa.

Esse é um momento muito difícil, tanto para quem está passando por ele, quanto para as pessoas a sua volta, em especial os pais. Por isso, utiliza-se muito o termo "aborrecência" para designar, de forma pejorativa, essa fase da vida. Mas será que essa denominação tem fundamento, tem razão de ser?

A verdade é que o jovem está passando, nessa fase, por um grande turbilhão de emoções, mudanças, necessidades, novidades. Ocorrem inúmeras mudanças no seu corpo, e consequentemente na sua relação com ele, a produção de hormônios está a mil, é o momento em que ele está definindo qual é o seu lugar no mundo, o que ele pensa, quais os seus valores, e paralelo a isso, abandonando muitos outros que não fazem mais sentido para ele, mas que foram passados por pessoas significativas, como seus pais. É a hora em que ele precisa começar a tomar decisões importantes, e assumir sozinho a reponsabilidade por elas, sem ter mais os pais por trás. Ao mesmo tempo, suas conquistas por liberdade ainda são bastante restritas, porque ainda dependem financeiramente e emocionalmente dos pais. Muito provavelmente, essa conquista ocorrerá apenas no fim de todo esse processo de amadurecimento.

Além de todo esse mundo novo, surge a necessidade da escolha da carreira, algo que afetará o resto de sua vida, e o que ganha um peso insuportável, quase como uma sentença. É a primeira grande escolha do jovem, e talvez a primeira vez em que ele se vê diante de tamanha responsabilidade, sozinho, porque por mais apoio que receba, a escolha em si é somente dele.

Para os pais, essa também é uma fase muito difícil. Eles verão seus valores, passados a seus filhos, serem colocados em cheque, deixarão de ser essenciais na vida deles, sua influência sobre os mesmos passará a ser mais limitada, a relação estabelecida passará por mudanças, haverá a possibilidade dos filhos chegarem mais longe do que eles próprios chegaram.

Tanto os adolescentes como seus pais são colocados diante de situações novas, com as quais muitas vezes não sabem lidar, nem sentem-se preparados para isso. Mas não há o que fazer, é preciso enfrentar. É uma fase difícil para ambos os lados, enfrentada de maneira diferente por cada um, mas, sem dúvida, é bastante marcante e complexa.

Por esse motivo, talvez, seja mais fácil simplificar todo esse complexo fenômeno da adolescência e reduzi-lo à "aborrência", como se o comportamento dos jovens fosse apenas "uma birra", e não uma consequência de todas as mudanças que estão acontecendo na sua vida e do stress existente em ter que lidar com elas, sem saber exatamente como.
 
Será mesmo justo chamar o adolescente de "aborrencente"?
 
 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Mentes Perigosas - O psicopata mora ao lado - Ana Beatriz Barbosa Silva



Depois de muito ouvir falar a respeito, tive a oportunidade de ler este livro. O assunto é muito interessante, e é algo que instiga nossa curiosidade, principalmente nos dias de hoje, em que vemos tantas barbaridades acontecendo por aí.

Neste livro, é possível encontrar informações a respeito das características e do modo de agir mais comuns aos psicopatas, sempre preocupando-se em deixar claro que um diagnóstico preciso vai muito além disso, e deve ser feito por um especialista.

A preocupação da autora é mais no sentido de alertar as pessoas, porque o psicopata tem, como uma de suas características marcantes, a simpatia (fingida) e a manipulação. Ou seja, é muito fácil deixar envolver-se por uma pessoa assim. E a destruição que ela pode causar é muito grande.

Além disso, o livro cita casos da experiência de atendimento da autora, que é psiquiatra, além de outros que são conhecidos do público.

A psicopatia é um transtorno da personalidade na qual o campo dos afetos e das emoções está bastante comprometido, e por esse motivo, a pessoa é incapaz de sentimentos como compaixão, amor, culpa, respeito. A única coisa que importa a ela é obter o que deseja, chegar ao seu objetivo, e para conseguir isso, ela utiliza todas as ferramentas que possui, sem preocupar-se minimamente com os estragos feitos nas vidas alheias. Existem diversos graus de psicopatia, e, por isso, muitos convivem por aí, com as outras pessoas, sem despertar suspeitas. Diferente do que muitas pessoas imaginam, uma pessoa com esse tipo de transtorno sabe muito bem o que está fazendo, as regras sociais e morais que está infringindo, mas pouco importa-se com isso. Alcançar o seu objetivo, seja qual for, é o mais importante.

É uma leitura fácil, bastante interessante, tanto para leigos quanto para profissionais da área da saúde.

Recomendo!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Psicoterapia: para quê?


Há não muito tempo, dizia-se que Psicólogo era coisa para loucos. Portanto, as pessoas sentiam medo da exposição que teriam ao procurar a ajuda deste profissional. Hoje, nas grandes cidades, principalmente, isso mudou bastante. Dizer que faz psicoterapia é quase chic. Mas, qual é o trabalho do Psicólogo? Em que ele diferencia-se de um Psiquiatra? Quando procurá-lo?

Psicólogo é o profissional formado em Psicologia, curso de graduação que tem duração, normalmente, de 5 anos. Assim como em outras áreas, a Psicologia possui uma série de especializações, dentre elas a Psicologia Clínica. A psicoterapia é o processo conduzido pelo Psicólogo Clínico, com o objetivo principal de ajudar a pessoa que o procura a se autoconhecer, possibilitando, com isso, que ela possa reconhecer e desenvolver seus potenciais, manejar melhor momentos de crise, conhecer características próprias que atrapalham seu desenvolvimento, seus relacionamentos, e ter a oportunidade de mudar, ou ao menos, compreender por que age de determinadas maneiras.

O Psiquiatra é o profissional formado em Medicina, e que especializou-se em Psiquiatria. Sua formação de base não possibilita que ele conduza um processo de psicoterapia, a não ser que ele faça formação, posteriormente, em Psicanálise, e ainda assim ele não seria um Psicoterapeuta, mas sim, um Psicanalista. Um Psicólogo também pode fazer essa formação, e também passará a utilizar esse título.

Via de regra, o Psiquiatra tem como função lidar com os sintomas do paciente, através da prescrição de medicamentos. Não serão trabalhadas as causas desses sintomas, quando as mesmas possuem fundo emocional.

Dentro ainda da formação do Psicólogo Clínico, existem diferentes abordagens teóricas nas quais esse profissional pode especializar-se, e baseado nessa escolha, utilizará conceitos e visões de homem e de mundo específicos para orientar seu trabalho. Algumas delas são: Psicanálise, Abordagem Junguiana, Fenomenologia, Existencialismo, Humanismo, Gestalt Terapia, Cognitivo Comportamental, dentre outras. Em cada uma delas o Psicólogo utilizará técnicas diferentes, o relacionamento entre psicoterapeuta e paciente será diferente. Qual é a melhor? Essa não é a pergunta certa a ser feita. Na realidade, isso varia de pessoa para pessoa, com que abordagem ela identifica-se mais, com qual sente-se mais a vontade e consegue atingir melhores resultados, dependendo também de quais são os seus objetivos com a psicoterapia.

Para exemplificar, de modo bastante simplificado, vamos falar um pouco sobre a abordagem a qual dedico-me, a Fenomenologia Existencial. Utiliza-se, como base, conceitos filosóficos a respeito da relação interpessoal, sobre o homem, sobre o mundo, da Fenomenologia e do Existencialismo, correntes de pensamento da Filosofia. Como processo psicoterapêutico, o importante é o aqui e agora, os assuntos que são considerados fundamentais pelo paciente neste momento. Procura-se compreender qual o sentido que aquele sintoma, aquela dificuldade, aquela questão tem para ele. O seu passado será assunto a ser trabalhado apenas quando isso o ajudar a compreender o que está ocorrendo agora com ele. Outra questão importante é a relação estabelecida entre psicoterapeuta e paciente. Esta pode ser vista como uma reedição das relações que esta pessoa estabelece no seu dia-a-dia, seguindo os mesmos padrões (ou de forma muito semelhante). Por isso, a relação também será foco de atenção, dado que ajudará o paciente a compreender seus padrões de comportamento fora do consultório. Também será trabalhada a questão das escolhas, que fazemos o tempo todo, mesmo sem perceber, o que isso implica, e a responsabilidade que temos sobre isso.

O papel do Psicólogo é de facilitador do processo, mas o trabalho duro será do paciente. Por isso, não basta frequentar a psicoterapia. É preciso realmente dedicar-se a ela, investir seu tempo e sua energia, pensar sobre o que é falado. É talvez a única oportunidade na semana, por 50 minutos, que a pessoa terá para pensar sobre si mesma! Quem ela é, suas potencialidades, suas dificuldades, o que quer, seus projetos. Sair um pouco do "piloto automático", onde fazemos coisas sem pensar, sem refletir, sem compreender, coisas que depois podem prejudicar-nos, atrapalhar nosso desenvolvimento, nossas relações.
Portanto, é preciso mesmo coragem para enfrentar esse desafio, mas os ganhos alcançados posteriormente compensam esse risco. Dar o primeiro passo para procurar esse profissional muitas vezes não é fácil. O ser humano tem muita dificuldade em sair da sua zona de conforto, mesmo que essa não seja tão confortável assim... mas começar a refletir sobre isso, se a ajuda de um Psicólogo poderia ser benéfica para a pessoa em sua vida, no momento que está vivendo, já é um grande passo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Escolha Profissional


Para Freud, todo homem saudável é aquele que é capaz de amar e trabalhar. Mas nem precisamos recorrer a ele para afirmarmos a importância vital que o trabalho tem na vida de todos nós, na construção de nossa identidade, no lugar que ocupamos na sociedade, em como nos vemos e em como os outros nos vêem.

Por isso, normalmente, quando o adolescente vai aproximando-se do fim do Ensino Médio e, consequentemente, do vestibular, uma grande questão o assombra: O que vou fazer? Que carreira vou seguir? Que faculdade vou cursar? Como vou escolher agora uma coisa que eu vou ter que fazer pelo resto da vida?!

Geralmente o adolescente não possui muitas informações sobre os cursos, as carreiras, as faculdades, o mercado de trabalho. Somado a isso, muitas idealizações permeiam suas mentes criativas. O médico que salva a todos, o advogado que conhece todas as leis e é imbatível, o psicólogo que vai saber lidar com todos os seus problemas, e por aí vai. E nisso tem grande influência, também, todas as identificações que temos, muitas das quais nem nos damos conta.

E então o adolescente faz sua escolha, e está tudo resolvido. Seria bom que fosse assim. Ou não. A grande verdade é que tudo sempre pode mudar, ficar mais complexo, o que não é necessariamente ruim. Nós mudamos, o mundo muda, e muitas vezes aquela escolha que fazia muito sentido aos 18 anos, não faz nenhum aos 22. E agora?

Rodolfo Bohoslavsky, psicólogo argentino que dedicou-se muito ao assunto da Orientação Profissional, fala que o desenvolvimento da identidade ocupacional passa por algumas fases. A primeira seria a do crescimento, que vai dos 4 aos 14 anos, em que, sucessivamente, a vocação é determinada pelas fantasias da criança, em seguida ganha importância a questão dos interesses e dos gostos, e por último, as habilidades que se tem. A segunda fase é a da exploração, que compreende dos 15 aos 24 anos, e é a fase onde o jovem busca informações, faz aproximações com as carreiras, faz ensaios, através dos estágios da faculdade e suas primeiras experiências profissionais. A terceira fase é a do estabelecimento, que estende-se dos 25 aos 44 anos, que vai desde as tentativas e erros, mudanças de área, de especialização, até a estabilidade. A seguir, vem a fase de manutenção e, depois, de declínio, ou seja, uma desacelaração do ritmo, e preparação para a última fase, de aposentadoria.

Tudo isso sugere que, no momento em que o adolescente faz a escolha pelo curso da faculdade, ele está apenas no meio do processo, e não está ainda definindo sua identidade profissional, que ainda passará por mudanças e ajustes. No fim da faculdade, normalmente por volta dos 22 anos, o jovem ainda está na fase da exploração, o que explica a crise que normalmente ocorre sobre que especialidade seguir agora dentro do curso que foi escolhido.

E há também a possibilidade de mudar, e isso pode ocorrer logo após o fim da faculdade, ou mesmo depois de um tempo de carreira. Muitas pessoas, quando estão nessa situação e buscam uma Orientação Profissional, dizem: "Você deve estar achando meio estranho eu estar aqui, né, já estou meio velho para isso". Isso é muito mais comum do que as pessoas imaginam.

Há algumas semanas foi publicada uma reportagem na Revista Você S/A que dá dicas sobre como realizar uma mudança de carreira em diferentes fases da vida, os riscos de cada uma, e a questão do planejamento financeiro. Além disso, fala muito da importância do auto-conhecimento. E isso não é nada fácil de ser alcançado, sem ajuda de um profissional, porque lá pelas tantas você já não sabe bem porque pensa de um jeito, e não de outro, as questões que interferem na sua escolha, suas limitações, seus potenciais. Por isso, uma Orientação Profissional de Carreira, nesta situação, é muito interessante, porque permitirá discutir com um profissional, fora do seu círculo pessoal e afetivo, questões fundamentais e, muitas vezes, difíceis e delicadas sobre esse assunto.

A verdade é que a escolha feita aos 18 anos ainda será, por muito tempo, questionada, refeita, modificada. Embora não seja fácil, é preciso aprender a lidar com as incertezas, com as frustrações, com a insegurança... e se traz algum consolo, todos nós passamos por isso, em algum momento da vida.

terça-feira, 22 de março de 2011

Ensina-me a Viver (Harold and Maude)


Este filme, de 1971, tem uma mistura interessante e inteligente de humor negro, romance e drama, e tem o poder de surpreender a todo instante. Conta a história de Harold, um rapaz que tem, por hábito, encenar suicídios. Como se isso não bastasse, ele tem um carro funerário e seu principal hobby é ir a enterros de pessoas desconhecidas.

A mãe de Harold é a principal expectadora das cenas de suicídio simulado de seu filho, e devido a preocupação que esse comportamento bizarro dele gera, ela procura formas de resolver seu problema. Manda-o para a terapia, pede para que um tio militar converse com ele, decide que ele deve casar-se e inscreve-o em uma empresa que organiza encontros e manda candidatas a namorada. Em nenhum momento, no entanto, ela procura conversar com ele, saber o que ele quer, o porquê de suas atititudes transgressoras, todas as suas soluções para o problema são muito centradas nela.

A certa altura do filme, Harold começa a observar uma senhora que sempre está nos funerais que ele vai e que, assim como ele, não parece ser nenhuma familiar ou amiga do morto. Maude inicia uma aproximação com Harold, que, acostumado a causar espanto nas pessoas por seus comportamentos bizarros, passa ele próprio a assustar-se com os comportamentos pouco convencionais dela.

Diferente dele, Maude ama a vida e vive-a intensamente. Ela é uma senhora, prestes a completar 80 anos, que faz absolutamente tudo o que passa pela sua cabeça, realiza todas as suas vontades, sem importar-se minimamente com regras, leis ou opiniões. E logo envolve Harold em suas loucuras. Ela é a única pessoa com quem ele realmente consegue conversar, se abrir, de uma forma bastante emocionante.

As músicas de Cat Stevens, feitas para o filme, e que acompanham toda a trama, são um espetáculo a parte, e mais do que simplesmente servirem como pano de fundo, suas letras traduzem muito bem os sentimentos vividos pelos personagens.

É um filme que faz pensar na vida, na forma como cada um encara os desafios que ela propõe. Ambos os personagens querem ser diferentes dos papéis que a sociedade lhes impõe, mas cada um escolhe um caminho diferente. Maude é exatamente o oposto do que sua imagem de senhora indefesa mostra, e da imagem que a própria sociedade tem de uma pessoa mais velha, e ela faz isso de forma bastante despreocupada, vivendo intensamente todos os momentos, fazendo aquilo que ela quer e acredita ser o certo, sem importar-se com mais nada. Já Harold, que também parece não suportar o papel que sua família lhe impõe, acaba por tentar chamar a atenção para si, como pessoa, através dos suicídios simulados, mas não obtém o êxito esperado, e começa a perceber, ao lado de Maude, uma outra forma de lidar com isso.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Viver no exterior


Com a situação promissora e estável em que nosso país encontra-se, principalmente se comparado aos países do Velho Mundo, muitos brasileiros que haviam imigrado estão voltando. Nosso ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, inclusive, em uma reportagem, no ano passado, "convocou" o grande contingente de brasileiros que moram em outros países pelo mundo afora a voltar, e reconstruir sua vida aqui.

É interessante ver como essa situação é o inverso do que sempre aconteceu. O povo brasileiro, sofrido, e que muitas vezes vivia em condições sub-humanas aqui, mas que mantinha seu espírito de trabalhador, imigrava em busca de novas oportunidades e uma condição de vida melhor, apesar de todo o sofrimento que essa mudança pudesse representar, em consequência de precisar deixar para trás família e amigos.

Além das pessoas que viam nessa mudança a única oportunidade de melhoria de sua condição de vida, indo sujeitar-se, na maioria das vezes, a sub-empregos, com condições precárias, mas muito mais rentáveis dos que encontravam por aqui, estão aqueles em melhor situação, que vêem na mudança para um país estrangeiro a oportunidade de melhorar seu currículo, progredir em sua carreira, adquirir mais-valia profissionalmente para tornarem-se mais competitivos no mercado de trabalho.

A questão de viajar, conhecer lugares novos, ter contato com novas culturas, infelizmente, pelo que observo, só pode ser sonhada pelas pessoas do segundo caso (com melhores condições financeiras), porque as pessoas do primeiro caso precisam poupar tudo o que ganham para enviar para as famílias que ficaram no Brasil e para concretizarem sonhos que antes eram impossíveis, como comprar uma casa.

Ainda assim, essas pessoas vivenciam a experiência de ser estrangeiro, ou seja, de ter que lidar com um mundo de novidades que precisam enfrentar, em relação a hábitos, comida, língua, cultura, etc.

Essa é, certamente, uma oportunidade de crescimento e mudança para qualquer pessoa, independente da classe social. Propicia auto-conhecimento, amplia o modo de ver as coisas, seus conceitos e valores. É necessário sair da sua "zona de conforto", e isso é sempre impulsionador de reflexão e mudança (e muitas vezes de sofrimento também).

O que todas essas pessoas compartilham é um sonho, de mudança, de melhoria de vida. Saem daqui cheios de planos e esperança, mas ao chegarem lá, seja onde for esse "lá", a realidade chega para puxar o sonho que já estava lá no alto para o chão, da vida dura do dia-a-dia, das dificuldades de adaptação, do preconceito de que se é vítima, da saudade das pessoas, dos lugares, das comidas e de coisas que nem se sabia que eram tão importantes.

Você pode perguntar: "mas não tem gente que se adapta muito bem, e inclusive escolhe viver para sempre fora do Brasil?". Tem, tem sim, tem muita gente nessas condições. Mas essas pessoas também já passaram por essa fase em que o sonho se transforma em realidade. A diferença é como elaboraram essa situação, a rede de suporte que possuem nesse país, as necessidades, os investimentos feitos, o que ficou para trás, tudo isso influencia. E para quem essa experiência foi mais traumática, logo vê nessa melhor condição em que nosso país encontra-se, uma oportunidade de ter uma vida melhor na sua terra, juntando o útil ao agradável. E sabe o que é mais surpreendente? Muitas pessoas, que fazem isso, não adaptam-se de novo aqui, e escolhem imigrar novamente.

O certo é que ninguém sai de uma experiência como essa igual a como entrou. E acho que uma das consequências mais interessantes disso é que essas pessoas tornam-se mais críticas, mais inconformadas com as mazelas que ocorrem no nosso país, com tudo o que não funciona aqui, com o lado (muito) ruim do nosso tão conhecido "jeitinho brasileiro", principalmente quando seu principal objetivo é tão somente levar vantagem, com a falta de respeito que, infelizmente, tem aumentado cada vez mais entre as pessoas.

Tem muita gente que vai para fora do país, como eu disse, em busca de trabalho, estudo, melhores oportunidades. Que todas essas pessoas possam trazer de volta para o nosso país toda a experiência que adquiriram, a cultura, o novo olhar, a inquietação, o inconformismo que isso proporciona, para podermos mudar aqui tudo o que não está bom, o que não funciona.