terça-feira, 22 de março de 2011

Ensina-me a Viver (Harold and Maude)


Este filme, de 1971, tem uma mistura interessante e inteligente de humor negro, romance e drama, e tem o poder de surpreender a todo instante. Conta a história de Harold, um rapaz que tem, por hábito, encenar suicídios. Como se isso não bastasse, ele tem um carro funerário e seu principal hobby é ir a enterros de pessoas desconhecidas.

A mãe de Harold é a principal expectadora das cenas de suicídio simulado de seu filho, e devido a preocupação que esse comportamento bizarro dele gera, ela procura formas de resolver seu problema. Manda-o para a terapia, pede para que um tio militar converse com ele, decide que ele deve casar-se e inscreve-o em uma empresa que organiza encontros e manda candidatas a namorada. Em nenhum momento, no entanto, ela procura conversar com ele, saber o que ele quer, o porquê de suas atititudes transgressoras, todas as suas soluções para o problema são muito centradas nela.

A certa altura do filme, Harold começa a observar uma senhora que sempre está nos funerais que ele vai e que, assim como ele, não parece ser nenhuma familiar ou amiga do morto. Maude inicia uma aproximação com Harold, que, acostumado a causar espanto nas pessoas por seus comportamentos bizarros, passa ele próprio a assustar-se com os comportamentos pouco convencionais dela.

Diferente dele, Maude ama a vida e vive-a intensamente. Ela é uma senhora, prestes a completar 80 anos, que faz absolutamente tudo o que passa pela sua cabeça, realiza todas as suas vontades, sem importar-se minimamente com regras, leis ou opiniões. E logo envolve Harold em suas loucuras. Ela é a única pessoa com quem ele realmente consegue conversar, se abrir, de uma forma bastante emocionante.

As músicas de Cat Stevens, feitas para o filme, e que acompanham toda a trama, são um espetáculo a parte, e mais do que simplesmente servirem como pano de fundo, suas letras traduzem muito bem os sentimentos vividos pelos personagens.

É um filme que faz pensar na vida, na forma como cada um encara os desafios que ela propõe. Ambos os personagens querem ser diferentes dos papéis que a sociedade lhes impõe, mas cada um escolhe um caminho diferente. Maude é exatamente o oposto do que sua imagem de senhora indefesa mostra, e da imagem que a própria sociedade tem de uma pessoa mais velha, e ela faz isso de forma bastante despreocupada, vivendo intensamente todos os momentos, fazendo aquilo que ela quer e acredita ser o certo, sem importar-se com mais nada. Já Harold, que também parece não suportar o papel que sua família lhe impõe, acaba por tentar chamar a atenção para si, como pessoa, através dos suicídios simulados, mas não obtém o êxito esperado, e começa a perceber, ao lado de Maude, uma outra forma de lidar com isso.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Viver no exterior


Com a situação promissora e estável em que nosso país encontra-se, principalmente se comparado aos países do Velho Mundo, muitos brasileiros que haviam imigrado estão voltando. Nosso ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, inclusive, em uma reportagem, no ano passado, "convocou" o grande contingente de brasileiros que moram em outros países pelo mundo afora a voltar, e reconstruir sua vida aqui.

É interessante ver como essa situação é o inverso do que sempre aconteceu. O povo brasileiro, sofrido, e que muitas vezes vivia em condições sub-humanas aqui, mas que mantinha seu espírito de trabalhador, imigrava em busca de novas oportunidades e uma condição de vida melhor, apesar de todo o sofrimento que essa mudança pudesse representar, em consequência de precisar deixar para trás família e amigos.

Além das pessoas que viam nessa mudança a única oportunidade de melhoria de sua condição de vida, indo sujeitar-se, na maioria das vezes, a sub-empregos, com condições precárias, mas muito mais rentáveis dos que encontravam por aqui, estão aqueles em melhor situação, que vêem na mudança para um país estrangeiro a oportunidade de melhorar seu currículo, progredir em sua carreira, adquirir mais-valia profissionalmente para tornarem-se mais competitivos no mercado de trabalho.

A questão de viajar, conhecer lugares novos, ter contato com novas culturas, infelizmente, pelo que observo, só pode ser sonhada pelas pessoas do segundo caso (com melhores condições financeiras), porque as pessoas do primeiro caso precisam poupar tudo o que ganham para enviar para as famílias que ficaram no Brasil e para concretizarem sonhos que antes eram impossíveis, como comprar uma casa.

Ainda assim, essas pessoas vivenciam a experiência de ser estrangeiro, ou seja, de ter que lidar com um mundo de novidades que precisam enfrentar, em relação a hábitos, comida, língua, cultura, etc.

Essa é, certamente, uma oportunidade de crescimento e mudança para qualquer pessoa, independente da classe social. Propicia auto-conhecimento, amplia o modo de ver as coisas, seus conceitos e valores. É necessário sair da sua "zona de conforto", e isso é sempre impulsionador de reflexão e mudança (e muitas vezes de sofrimento também).

O que todas essas pessoas compartilham é um sonho, de mudança, de melhoria de vida. Saem daqui cheios de planos e esperança, mas ao chegarem lá, seja onde for esse "lá", a realidade chega para puxar o sonho que já estava lá no alto para o chão, da vida dura do dia-a-dia, das dificuldades de adaptação, do preconceito de que se é vítima, da saudade das pessoas, dos lugares, das comidas e de coisas que nem se sabia que eram tão importantes.

Você pode perguntar: "mas não tem gente que se adapta muito bem, e inclusive escolhe viver para sempre fora do Brasil?". Tem, tem sim, tem muita gente nessas condições. Mas essas pessoas também já passaram por essa fase em que o sonho se transforma em realidade. A diferença é como elaboraram essa situação, a rede de suporte que possuem nesse país, as necessidades, os investimentos feitos, o que ficou para trás, tudo isso influencia. E para quem essa experiência foi mais traumática, logo vê nessa melhor condição em que nosso país encontra-se, uma oportunidade de ter uma vida melhor na sua terra, juntando o útil ao agradável. E sabe o que é mais surpreendente? Muitas pessoas, que fazem isso, não adaptam-se de novo aqui, e escolhem imigrar novamente.

O certo é que ninguém sai de uma experiência como essa igual a como entrou. E acho que uma das consequências mais interessantes disso é que essas pessoas tornam-se mais críticas, mais inconformadas com as mazelas que ocorrem no nosso país, com tudo o que não funciona aqui, com o lado (muito) ruim do nosso tão conhecido "jeitinho brasileiro", principalmente quando seu principal objetivo é tão somente levar vantagem, com a falta de respeito que, infelizmente, tem aumentado cada vez mais entre as pessoas.

Tem muita gente que vai para fora do país, como eu disse, em busca de trabalho, estudo, melhores oportunidades. Que todas essas pessoas possam trazer de volta para o nosso país toda a experiência que adquiriram, a cultura, o novo olhar, a inquietação, o inconformismo que isso proporciona, para podermos mudar aqui tudo o que não está bom, o que não funciona.