Para Freud, todo homem saudável é aquele que é capaz de amar e trabalhar. Mas nem precisamos recorrer a ele para afirmarmos a importância vital que o trabalho tem na vida de todos nós, na construção de nossa identidade, no lugar que ocupamos na sociedade, em como nos vemos e em como os outros nos vêem.
Por isso, normalmente, quando o adolescente vai aproximando-se do fim do Ensino Médio e, consequentemente, do vestibular, uma grande questão o assombra: O que vou fazer? Que carreira vou seguir? Que faculdade vou cursar? Como vou escolher agora uma coisa que eu vou ter que fazer pelo resto da vida?!
Geralmente o adolescente não possui muitas informações sobre os cursos, as carreiras, as faculdades, o mercado de trabalho. Somado a isso, muitas idealizações permeiam suas mentes criativas. O médico que salva a todos, o advogado que conhece todas as leis e é imbatível, o psicólogo que vai saber lidar com todos os seus problemas, e por aí vai. E nisso tem grande influência, também, todas as identificações que temos, muitas das quais nem nos damos conta.
E então o adolescente faz sua escolha, e está tudo resolvido. Seria bom que fosse assim. Ou não. A grande verdade é que tudo sempre pode mudar, ficar mais complexo, o que não é necessariamente ruim. Nós mudamos, o mundo muda, e muitas vezes aquela escolha que fazia muito sentido aos 18 anos, não faz nenhum aos 22. E agora?
Rodolfo Bohoslavsky, psicólogo argentino que dedicou-se muito ao assunto da Orientação Profissional, fala que o desenvolvimento da identidade ocupacional passa por algumas fases. A primeira seria a do crescimento, que vai dos 4 aos 14 anos, em que, sucessivamente, a vocação é determinada pelas fantasias da criança, em seguida ganha importância a questão dos interesses e dos gostos, e por último, as habilidades que se tem. A segunda fase é a da exploração, que compreende dos 15 aos 24 anos, e é a fase onde o jovem busca informações, faz aproximações com as carreiras, faz ensaios, através dos estágios da faculdade e suas primeiras experiências profissionais. A terceira fase é a do estabelecimento, que estende-se dos 25 aos 44 anos, que vai desde as tentativas e erros, mudanças de área, de especialização, até a estabilidade. A seguir, vem a fase de manutenção e, depois, de declínio, ou seja, uma desacelaração do ritmo, e preparação para a última fase, de aposentadoria.
Tudo isso sugere que, no momento em que o adolescente faz a escolha pelo curso da faculdade, ele está apenas no meio do processo, e não está ainda definindo sua identidade profissional, que ainda passará por mudanças e ajustes. No fim da faculdade, normalmente por volta dos 22 anos, o jovem ainda está na fase da exploração, o que explica a crise que normalmente ocorre sobre que especialidade seguir agora dentro do curso que foi escolhido.
E há também a possibilidade de mudar, e isso pode ocorrer logo após o fim da faculdade, ou mesmo depois de um tempo de carreira. Muitas pessoas, quando estão nessa situação e buscam uma Orientação Profissional, dizem: "Você deve estar achando meio estranho eu estar aqui, né, já estou meio velho para isso". Isso é muito mais comum do que as pessoas imaginam.
Há algumas semanas foi publicada uma reportagem na Revista Você S/A que dá dicas sobre como realizar uma mudança de carreira em diferentes fases da vida, os riscos de cada uma, e a questão do planejamento financeiro. Além disso, fala muito da importância do auto-conhecimento. E isso não é nada fácil de ser alcançado, sem ajuda de um profissional, porque lá pelas tantas você já não sabe bem porque pensa de um jeito, e não de outro, as questões que interferem na sua escolha, suas limitações, seus potenciais. Por isso, uma Orientação Profissional de Carreira, nesta situação, é muito interessante, porque permitirá discutir com um profissional, fora do seu círculo pessoal e afetivo, questões fundamentais e, muitas vezes, difíceis e delicadas sobre esse assunto.
A verdade é que a escolha feita aos 18 anos ainda será, por muito tempo, questionada, refeita, modificada. Embora não seja fácil, é preciso aprender a lidar com as incertezas, com as frustrações, com a insegurança... e se traz algum consolo, todos nós passamos por isso, em algum momento da vida.